Brasília, sexta-feira, 10 de setembro de 2010

 
 
 
 
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Caics do DF: do apogeu à sucata. - 29/1/2006

Centros que mantinham crianças envolvidas durante todo o dia em projeto pedagógico viram escolas comuns, mal conservadas

Ciep, Ciac, Caic. Siglas diferentes para definir a filosofia de ensino. Oportunidades desperdiçadas de garantir uma educação integral para crianças de baixa renda. Depois de quase 15 anos, o ambicioso projeto, criado no governo de Fernando Collor, em outubro de 1991, virou sucata. Dos 14 Centros de Atenção Integral à Criança (Caic) inaugurados no Distrito Federal, raros são os que ainda mantêm o espírito do programa. A maioria deles se transformou em escolas de educação infantil - de pré-escolar a 4ª série - convencionais e foram abandonados à mercê do tempo.
A iniciativa deixou críticas e saudades. É o caso do professora Eliane do Carmo Aragão, vice-diretora do Caic Helena Reis, em Samambaia, que lembra dos tempos em que as crianças passavam o dia na escola produzindo conhecimento. Ela afirma que na grade curricular os alunos tinham aulas em sala num turno e no outro tinham atividades esportiva e recreativa, que estimulava o desenvolvimento da psicomotricidade.
- Oferecíamos um ensino de excelência. As crianças tinham a oportunidade de trabalhar o lúdico dentro das salas de aula. Todos os nossos projetos iam para a frente. Era uma satisfação trabalhar nesse projeto. O Caic tinha a proposta de estimular ao máximo os alunos. Com isso, os estudantes se sentiam motivados para estudar. Os resultados eram incríveis.



Realidade longe do projeto original

O encanto acabou. Os Centros de Atenção Integral à Criança (Caic) acabaram virando escolas-classes como outras quaisquer. Alunos, comunidade e professores não contam mais com projetos sociais, esportivos, culturais e profissionalizantes, como antes. Poucas escolas mantêm atividades extracurriculares. Quando o fazem, contam apenas com o esforço dos professores e da comunidade. A realidade está bem distante dos anos dourados de 1991, quando o programa foi inaugurado.
Para bancar pequenos consertos cada escola faz o que pode. Vale de tudo: ajuda da comunidade, aluguel das dependências da escola, festas, almoços, jantares dançantes e eventos pagos. Hoje, os Caics recebem duas verbas anuais, uma federal e a outra distrital, que vêm do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e do Programa de Descentralização de Recursos Financeiros (PDRF), respectivamente. O montante dos recursos depende do número de alunos matriculados.
Maria de Souza Macedo, assistente pedagógica do Caic Bernardo Sayão, em Ceilândia Sul, afirma que com a verba anual não dá para pagar as despesas mensais da escola, que atende 1.200 alunos da educação infantil. A instituição de ensino recebe cerca de R$ 20 mil para pagar suas contas.
- O grande problema que enfrentamos atualmente são as infiltrações no telhado. Em conseqüência disso, a rede elétrica está totalmente comprometida. Os alunos correm o risco de tomarem um choque, porque a fiação fica totalmente exposta. Com o dinheiro que recebemos não dá para pagar uma reforma geral na infra-estrutura da escola. A Secretaria de Educação nunca realizou um serviço geral de manutenção.
O Caic Anísio Teixeira, em Ceilândia, conseguiu construir, em 1999, uma piscina com dinheiro arrecadado numa festa junina. O espaço é usado para aulas de natação de 1.300 alunos e hidroginástica para a comunidade.
Abandono - A doméstica Marli de Farias, de 35 anos, tem dois filhos matriculados no Caic Anísio Teixeira. Ela afirma que a escola está totalmente abandonada pela Secretaria de Educação. O colégio sempre pede ajuda dos pais para a compra de material de construção para pequenas reformas.
- O Caic está totalmente ao Deus-dará. A Secretaria de Educação faz pequenas reformas para tapar buracos, porque, se não, a casa cai. Mas a grande verdade é que a escola hoje é movida pelo esforço dos professores, que investem em melhorias com recursos próprios. A nossa comunidade é muito carente. Os pais não podem colaborar com muito. Tem pessoas que dão R$ 5, por semestre. Mas toda ajuda é válida.
No Caic Helena Reis, em Samambaia, a vice-diretora, Eliane do Carmo, afirma que os pombos estão tomando conta da escola. Há períodos do ano, que algumas salas são desativadas por causa dos piolhos. A preocupação da professora é com a saúde das crianças.
- Infelizmente não podemos tomar nenhuma providência para exterminar os pombos. Eles sujam toda a escola, causando mau cheiro. O ginásio de esporte virou o reduto dos bicho. A Vigilância Sanitária já veio ver o problema, mas nada fizeram. Tememos que uma criança adoeça por causa dos piolhos dos pombos.
Segurança - A falta de segurança nos Caics é um problema que assusta direção, professores, alunos e comunidade. Constantemente as escolas são assaltadas. De acordo com a vice-diretora, Eliane do Carmo Aragão, do Caic Helena Reis, em Samambaia - que atende 960 crianças, os meninos invadem o colégio para roubar as lâmpadas para preparar o cerol das pipas, principalmente em época de férias. Outro atrativo para os furtos são os materiais das aulas arte e de ginástica, além dos equipamentos eletrônicos, como caixas de som, computadores, televisões e vídeos-cassete.
- São poucos os Caics que contam com a presença de policias do Batalhão Escolar. Aqui a gente só conta com um vigia, que infelizmente acaba sendo coagido pelos assaltantes. A própria comunidade não dá valor para as escolas públicas. Essas invasões acabam abalando todo o sistema operacional da escola. Não temos recursos para ficar repondo os objetos roubados. Tudo isso compromete o nosso trabalho. O parquinho e as quadras de esportes foram desativados justamente porque ficam em áreas isoladas.
No Caic Bernardo Sayão, em Ceilândia Sul, a situação não é diferente. Como não há policiamento diariamente, a escola reformou o quarto dos vigias para que eles possam levar suas famílias e, assim, permanecer na escola.
- Só temos um segurança por turno. O espaço físico do Caic é muito grande para ser monitorado por completo. Antes, eles tinham receio de percorrer as áreas sem iluminação da escola. Agora, eles têm a segurança de ter um espaço para eles - afirma a assistente pedagoga, Maria de Souza.

FONTE: JORNAL DO BRASIL CADERNO BRASÍLIA EM 29/01/2006

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