Sobrecarga doméstica intensifica risco de violência contra mulheres
A responsabilidade desproporcional com cuidados familiares e afazeres domésticos representa um fator crítico que amplia a vulnerabilidade das mulheres à violência de gênero. Especialistas apontam que essa dinâmica, enraizada historicamente, cria condições propícias para agressões e outras formas de violência no âmbito doméstico, especialmente quando coincide com dependências financeira e psicológica.
A dupla jornada como fator de vulnerabilidade
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua 2022, mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a atividades de cuidado, enquanto homens gastam 11,7 horas com os mesmos afazeres. Esse desequilíbrio, denominado trabalho de cuidado, mantém muitas mulheres confinadas ao espaço privado das residências, reduzindo sua autonomia econômica e dificultando a saída de relacionamentos abusivos.
Professora doutora em Serviço Social, Thamires da Silva Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, destaca que a sobrecarga impede que mulheres construam redes sociais e econômicas independentes. Ela enfatiza que a situação é ainda mais grave para mulheres negras, historicamente posicionadas como principais provedoras de cuidados na sociedade brasileira.
Dependência psicológica além da financeira
A vulnerabilidade não se limita aos aspectos econômicos. Advogada e professora universitária que atua no combate à violência contra mulheres, ressalta que muitas vítimas desenvolvem dependência psicológica que as faz acreditar serem incapazes de romper ciclos abusivos, independentemente da capacidade financeira. Essa ilusão de dependência, alimentada pela violência psicológica contínua, impede que elas reconheçam seu próprio potencial.
O sistema patriarcal como obstáculo
Estruturas sociais patriarcais reforçam expectativas de que mulheres devem conciliar afazeres domésticos, cuidado com a família e trabalho remunerado simultaneamente. Quando conseguem romper esse ciclo, enfrentam preconceito social por desafiarem a ordem considerada natural pela sociedade. Especialistas apontam que essa pressão social adiciona camadas de complexidade ao processo de abandono de relacionamentos violentos.
Avanços na proteção legal
A Lei Maria da Penha, que completa duas décadas, estabelece mecanismos de proteção incluindo medidas protetivas de urgência. Recentemente, a Política Nacional de Cuidados, aprovada em dezembro de 2024, surge como ferramenta para redistribuir responsabilidades de cuidado entre homens e mulheres, potencialmente reduzindo a sobrecarga que alimenta ciclos de violência.
Dimensão do problema
Os números revelam a gravidade da violência contra mulheres no Brasil. Em 2025, registram-se 1.571 vítimas de feminicídio, com média superior a quatro mortes diárias. Oito entre dez casos foram perpetrados por parceiros ou ex-parceiros. Além disso, o país enfrenta 286,3 mil registros de agressão doméstica, 788,6 mil casos de ameaças e 132 mil episódios de descumprimento de medidas protetivas.
Canais de apoio e denúncia
A Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, vinculada ao Ministério das Mulheres, funciona gratuitamente 24 horas diariamente, oferecendo também atendimento via chat no WhatsApp ou e-mail. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo número 190. O Conselho Nacional de Justiça disponibiliza informações sobre Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e Defensorias Públicas em todo o país.
Especialistas enfatizam que o enfrentamento à violência não é responsabilidade exclusiva das vítimas, mas exige comprometimento coletivo da sociedade, vizinhança e instituições públicas para que os mecanismos de proteção legal se concretizem em prática efetiva.
