Sagrado em alta: por que música, livros e séries abraçam espiritualidade

Sagrado em alta: por que música, livros e séries abraçam espiritualidade
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A cultura contemporânea vive um momento de intenso diálogo com o sagrado. De álbuns de música a séries de streaming, passando por lançamentos editoriais, artistas e produtoras apostam na espiritualidade como tema central de seus trabalhos, refletindo uma transformação profunda nas prioridades do público.

Música como porta-voz da fé

Rosalía encabeça esse movimento com seu álbum “Lux”, inspirado em hagiografias de santas católicas, obras de místicas islâmicas e budistas, além de escritoras cristãs como Hildegarda de Bingen. A catalã, conhecida por misturar flamenco com reggaeton e eletrônico, agora usa sua plataforma para explorar dilemas espirituais milenares.

Não está sozinha. Anitta incorporou elementos do candomblé em “Equilibrivm II” e afirmou publicamente não ter mais medo de dizer que é “da macumba”. Justin Bieber cantou “Everything Hallelujah” na final da Copa do Mundo, refletindo sua jornada espiritual. M.I.A. lançou “M.I.7” repleto de referências ao Apocalipse, enquanto Azealia Banks transformou seu disco “Zenzealia” em uma meditação guiada.

Cinema e séries em busca do transcendental

A indústria audiovisual também aposta no tema. “The Chosen”, série que narra a vida de Jesus com produção cuidadosa e profundidade dramática, virou fenômeno global. Financiada pelos próprios espectadores, conquistou quase um milhão de ingressos em cada uma de suas exibições em cinemas no Brasil, onde é transmitida por SBT, Netflix e Prime Video.

Filmes como “O som da liberdade” e “A forja” atraíram públicos fiéis. Outras produções incluem “Os santos por Martin Scorsese”, “Casa de Davi” e a animação “O rei dos reis”. “A ressurreição de Cristo”, sequência de “A paixão de Cristo” de Mel Gibson, chega aos cinemas em duas partes no próximo ano. Os Estúdios Globo selaram parceria com a editora Mundo Cristão para adaptar obras de ficção cristã.

Editoras se reorganizam em torno do espiritual

O mercado editorial acompanha a tendência. A Rocco inauginou um selo ecumênico dedicado a obras sobre espiritualidade, desde “Meditações diárias de Santo Agostinho” até “Os segredos do tarô”. A Zahar, da Companhia das Letras, lança “Uma ideia elegante de Deus”, do pastor batista Ed René Kivitz, e planeja “Deus em busca do homem”, do rabino Abraham J. Heschel.

Globalmente, os dois maiores grupos editoriais—Penguin Random House e HarperCollins—criaram selos dedicados ao tema. O HarperElement Spirit surgiu como resposta ao “crescimento do apetite global por sentido, reflexão e uma vida guiada pela fé”. Já o selo Enlighten da PRH estreia no Reino Unido com escritos do Papa Leão XIV.

“A sabedoria das noviças”, das pesquisadoras espanholas Ana Garriga e Carmen Urbita, busca nas biografias de freiras do século XVI conselhos para problemas contemporâneos como síndrome do impostor. O livro alcançou 11 países.

Por trás do fenômeno

Segundo Jorge Cláudio Ribeiro, professor do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, artistas funcionam como “antenas” que captam tendências contemporâneas. A antropóloga Lívia Reis, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), explica que a modernidade tentou confinar a religião à esfera privada, mas ela sempre foi pública e contribuiu para formar identidades nacionais.

Nos últimos tempos, presencia-se uma “reconfiguração da importância da religião na vida pública” mundial. Tradições antes invisibilizadas, como o evangelicalismo no Brasil, se integraram à cultura, permitindo que pessoas de fé falem abertamente sobre espiritualidade.

O jornalista musical Guilherme Guedes aventou hipóteses: inteligência comercial, reflexo da onda conservadora ou reação ao excesso de ruído contemporâneo. Ele acredita que a vida controlada por máquinas e algoritmos incompreensíveis nos impele a buscar humanidade mediante conexão espiritual.

Ana Lima, editora executiva da Rocco, vê os “excessos do contemporâneo” como motor da busca por refúgio na espiritualidade. Pandemia, crise ecológica e apocalipticismo forçaram confronto com a finitude e preparação para lidar melhor com a existência.

Literatura como reflexo da inquietação

O romance “Apneia”, de Esther Faingold, narra a história de uma mulher imersa em religiões diversas desde a infância que, enfrentando depressão, busca cura no budismo tibetano e outras tradições. A fé aparece como crise profunda, não como certeza comercial.

“Mártir!”, de Kaveh Akbar, acompanha Cyrus, muçulmano queer em recuperação de dependência de álcool, que busca graça ao escrever sobre martírio despido de carga religiosa. Akbar organiza antologia inédita em português com 110 poetas sobre o divino, incluindo Adélia Prado.

Conclusão

O retorno do sagrado à cultura contemporânea não representa simples nostalgia. Reflete busca genuína por sentido diante de incertezas globais, oferecendo tanto ferramentas de autoconhecimento quanto escape de realidades opressivas. Enquanto alguns usam a fé de forma conservadora e dogmática, outros a exploram de maneira disruptiva e humanizadora, buscando a luz persistente em tempos de escuridão.

Geraldo Naves